No dia 9 de agosto de 2026, nos despedimos do brilhante criminalista Paulo Sérgio Leite Fernandes, 90, um mestre da oratória, escriba soberbo e profundo conhecedor da alma humana. Um advogado destemido e, sobretudo, amado por todos quantos com ele conviveram. Conheci-o em 13 de julho de 2000, numa entrevista de trabalho. O teste era singelo: um ditado de uma página aleatoriamente sorteada da obra Os Lusíadas. Passei. Sua filha, Paula Bajer Fernandes, atendendo um pedido de minha mãe, me indicou ao escritório do seu pai, sob a seguinte advertência: se sobreviver nos primeiros seis meses, seu filho será um bom advogado. Aprovado na entrevista, iniciei minha jornada na dificílima arte da advocacia criminal. Foram 15 anos inesquecíveis. Agora, o menestrel passa os limites deste universo.
Reprodução/YouTubePaulo Sérgio Leite Fernandes, abril de 2025
No período em que convivi ininterruptamente com o mestre, nunca o vi desanimar com uma sentença desfavorável ao seu constituinte ou com os infortúnios do cotidiano. Incansável e extremamente dedicado, chegava antes de todos e fechava o escritório. Paulo Sérgio Leite Fernandes me ensinou a dizer não, a buscar o impensável, a se aperfeiçoar intelectualmente, a amar a advocacia, as artes e o Direito. Um professor nato. Na primeira vez em que o acompanhei ao Tribunal de Justiça para uma sustentação oral, compreendi sua potência criativa. O roteiro preparado não foi seguido e a ordem de habeas corpus foi concedida. Tenho nos encaixes da memória um advogado elegante, ternos clássicos, suspensórios finos, dono de uma voz muito clara e grave, honesto, irado às vezes, aquele olhar provocador fazendo medo no adversário, mas pronto para o abraço apertado no fim de tarde e na promessa do amanhã que, para ele, de alguma forma não existia.
Fundador do Jornal do Advogado no meio da ditadura, criou no ano de 2000 um canal de comunicação inovador, remetendo suas grandiosas crônicas de maneira audiovisual a diversos advogados, juízes e promotores. Este precioso acervo está à disposição de todos na plataforma YouTube. Um homem a frente do seu tempo, com certeza. Mas era no contato pessoal que o Feiticeiro (assim ele se denominava) encantava seus interlocutores. Certa vez, um jovem advogado, que estava a debutar na Tribuna da Corte paulista, pediu um conselho ao mestre. O colega estava nervoso. Com muita calma, Paulo Sérgio perguntou ao orador se ele havia ido ao banheiro pela manhã. “Sim, eu fui, doutor”, respondeu o advogado com um ar de surpresa pela inusitada pergunta. Todos nós vamos ao banheiro, inclusive o Desembargador. Pense nele neste momento que a ansiedade se esvai. Não fique angustiado. Se você preparou bem a defesa, basta seguir em frente. Um conselho simbólico, por certo, à moda “Paulo Sergiana”.
Em 2015, saí do seu mítico escritório. Siga em frente, Rogerinho, você já está forjado para a advocacia criminal. A vida é curiosa: eu ainda ouço a sua voz de vez em quando ecoando na minha mente, um conselho, um alerta, uma bronca. Enquanto me emocionava com a homenagem simples mas muito tocante para a família e amigos presentes no seu enterro, sentia a presença do Paulo Sérgio cumprindo um dos propósitos da sua vida: o amor à liberdade. Meu último contato físico com ele foi emocionante, doce e suave. Recebi um beijo querido e me sinto abraçado até agora.
A miscelânea vertendo na ideação cerebral é fantástica. Anos atrás, o mestre Paulo Sérgio me disse que não faria mais necrológios. Escreveu sobre isso. Fui atrás, numa desesperada busca de um momento pretérito de meu convívio com seus ensinamentos filosóficos. Achei:
“Se pudesse, não iria nem ao meu enterro, pois os féretros são, na expressão da palavra, muito constrangedores. Toda vez que morre um amigo me vem à memória o poema “Hora Íntima”, de Vinícius de Moraes: ‘Quem pagará o enterro e as flores, se eu me morrer de amores?’. Realmente, os defuntos importantes têm coroas e faixas enaltecendo-lhes as qualidades. Os remetentes fazem questão de dizer a que vieram, como se o morto estivesse ali a ler as dedicatórias. Não sei se as almas leem mas, segundo os “experts”, elas mantêm a cultura haurida enquanto o invólucro as guardar. De qualquer maneira, ainda lembrando Vinícius, valeria a pena a transcrição de trecho outro do poema famoso: “Quem, dentre amigos, tão amigo para estar no caixão comigo? Quem, em meio ao funeral, dirá de mim: – Nunca fez mal… Quem, bêbado, chorará em voz alta de não me ter trazido nada? Quem virá despetalar pétalas no meu túmulo de poeta?”. Adiante: “Quem, oculta em véus escuros, se crucificará nos muros?”.
Spacca…
Paulo Sérgio Leite Fernandes pregou com excelência a sabedoria do bem-viver e do bem-morrer nos seus escritos, crônicas e palestras. Extraordinária criatura, tinha compleição física sedutora. Tive a honra de acompanhá-lo em muitas defesas orais e atuar ao seu lado em seis plenárias. No correr dos anos e na medida em que envelhecíamos juntos, o mestre se referia ao Júri como os “Salões dos Passos Perdidos”, citando o inesquecível doutor Evandro Lins e Silva. Tudo isso veio à mente deste aprendiz na sua despedida.
Escrever uma oração fúnebre é algo difícil demais para aqueles que ficam. Corre-se o risco de passar para o xingamento do destino, rebelde o homem à fatalidade do nascer, crescer, amar, fazer filhos, sofrer, sorrir e depois morrer. No entremeio os personagens vão surgindo, como num cartaz que tenho em casa, representando uma cena do filme “E La Nave Va”, de Federico Fellini, um dos preferidos de Paulo Sérgio. Dizia ele que os “gajos” vão embora, cada um tatuando e machucando o corpo da gente, eles e elas. A gente fica como testemunha do que já foi. Depois vêm outro e outro, e mais outro. E La Nave Va. Saudades do Paulo Sérgio. Abraço o meu mestre com um reconhecimento enorme da sua importância na minha vida e, sobretudo, na advocacia criminal brasileira, restando, no fim de tudo, um sentimento de privação da sua genialidade humana que tive o privilégio de desfrutar.
Com amor e eternamente grato, Rogério Seguins, um aprendiz de feiticeiro.
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