O papel do jornalista em tempos de inquietação

Há momentos em que o horizonte político se torna sombrio, e os resultados eleitorais, embora devam ser respeitados como expressão da vontade popular, parecem anunciar tempos procelosos para a democracia e para as liberdades.

Assusta pensar que as próprias urnas possam conferir força a projetos que venham a comprometer as garantias que tornam possível o exercício livre do voto.

A vitória eleitoral, por expressiva que seja, não constitui autorização para o arbítrio.

Nenhuma maioria é senhora da Constituição, nenhuma liderança pode apropriar-se do Estado, e nenhum governante tem o direito de converter os direitos fundamentais em concessões pessoais.

A democracia impõe limites ao poder, respeito às minorias e instituições capazes de resistir às tentações autoritárias.

Sob perspectiva eminentemente democrática, sinto essa profunda inquietação. Ela nos impõe, contudo, o dever de permanecer vigilantes, pois a erosão das liberdades pode começar sob a aparência da normalidade institucional.

Há conquistas civilizatórias cuja defesa não admite cansaço, nem silêncio: a dignidade humana, a liberdade e o direito de viver sem medo do poder.

Em todo esse contexto, o papel do jornalista cresce ainda mais de importância, na medida em que sua voz em defesa da Constituição terá significativa projeção no âmbito social.

Ruy Barbosa, em A imprensa e o dever da verdade, proclamou que “a imprensa é a vista da Nação”. Sem ela, a sociedade viveria no escuro! Essa imagem traduz uma elevada responsabilidade cívica: permitir que a sociedade reconheça os perigos que a ameaçam, perceba os abusos do poder e compreenda o valor das liberdades.

É também nessa perspectiva que vejo a missão do jornalista: a de velar pela Constituição, esclarecendo consciências e denunciando, com independência, rigor e coragem, as iniciativas que possam comprometer a integridade da ordem democrática.

Em tempos de inquietação, a voz do jornalista pode impedir que o arbítrio se banalize, que a intolerância se torne hábito e que a sociedade se acostume à perda de suas próprias garantias.

Defender a Constituição é preservar o espaço em que todos, inclusive os que divergem de nós, possam viver e manifestar-se em liberdade.

A atuação do jornalista terá, por isso, o significado de um serviço precioso prestado à República: lembrar que nenhum triunfo eleitoral dispensa o respeito aos limites do poder e que nenhuma maioria pode dispor da liberdade de todos.

Há momentos na vida dos povos em que a palavra pública adquire uma responsabilidade extraordinária. Quando a inquietação se dissemina, as certezas se desfazem e o debate se converte em território de hostilidades, o jornalista assume uma missão de particular relevo: oferecer à sociedade os elementos necessários para compreender os acontecimentos, discernir a realidade e exercer, com liberdade, o próprio juízo. Sua voz pode iluminar aquilo que o medo obscurece e revelar aquilo que o poder deseja ocultar.

Essa responsabilidade exige independência, coragem e rigor. A urgência da notícia não dispensa a apuração; a gravidade da suspeita não autoriza convertê-la em certeza; a intensidade das paixões coletivas não exonera ninguém do dever de verificar.

Em tempos de inquietação, o compromisso com a verdade dos fatos torna-se ainda mais necessário, porque a mentira encontra, na ansiedade e no ressentimento, condições propícias à sua propagação.

Cabe ao jornalista resistir à sedução do espetáculo e à facilidade das conclusões antecipadas.

A independência jornalística tampouco se confunde com indiferença diante da opressão. É possível — e necessário — observar os deveres de exatidão, ouvir os envolvidos e respeitar a diversidade de opiniões sem conceder à falsidade a mesma autoridade dos fatos ou tratar a violência como simples expressão de uma preferência política.

O pluralismo reclama abertura ao dissenso, mas não exige abdicação da consciência crítica. Uma imprensa livre deve saber reconhecer quando a disputa de ideias passa a ameaçar as próprias condições que tornam possível o debate.

Ao fiscalizar o poder, investigar abusos e dar visibilidade aos que não dispõem de meios para fazer ouvir a própria voz, o jornalista amplia o espaço da cidadania. Nenhuma autoridade deve considerar-se imune ao escrutínio público, assim como nenhuma acusação deve escapar ao exame responsável de seus fundamentos. A credibilidade da imprensa nasce dessa dupla fidelidade: a firmeza perante os poderosos e a honestidade perante os fatos.

Há, ainda, uma dimensão humana nesse ofício. Por trás das crises, dos conflitos e das estatísticas, existem pessoas concretas, atingidas em sua dignidade, em seus direitos e em suas esperanças. O bom jornalismo restitui rosto e história àqueles que a linguagem abstrata do poder frequentemente reduz a números. E, ao preservar a memória dos acontecimentos, impede que o sofrimento seja apagado e que os erros do passado retornem sob a proteção do esquecimento.

Em tempos de inquietação, informar é também ajudar a sociedade a recuperar a capacidade de pensar. Isso pressupõe contextualizar, distinguir o essencial do acessório e recusar tanto o alarmismo quanto a complacência.

O jornalista não precisa oferecer certezas que os fatos ainda não permitem; precisa ter a integridade de reconhecer o que sabe, o que permanece obscuro e o que ainda exige investigação.

A palavra jornalística alcança sua mais alta dignidade quando permite ao cidadão compreender e decidir por si mesmo. Quando a inquietação ameaça obscurecer a razão pública, a imprensa livre tem o dever de manter acesa a luz dos fatos.

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