A Anthropic submeteu à Securities and Exchange Commission (SEC) — Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos —, em junho, a minuta confidencial de seu prospecto de registro (Form S-1). Parte do conteúdo veio a público no fim de setembro, após a Reuters alegar ter tido acesso ao documento. A estreia na Nasdaq é esperada para novembro, com rumores de valuation de US$ 2 trilhões.
Spacca…
O balanço de 2025 da Anthropic registra receita de quase US$ 4,6 bilhões, doze vezes a do ano anterior, prejuízo operacional acima de US$ 8 bilhões e prejuízo líquido de quase US$ 42 bilhões, dos quais cerca de US$ 34 bilhões são encargo contábil pela valorização de instrumentos conversíveis, sem saída de caixa. Em 2026, a receita do segundo trimestre chegou a US$ 11,5 bilhões, e a empresa disse a acionistas que o resultado operacional ajustado será positivo pelo segundo trimestre seguido.
Em análise da coluna Lex do Financial Times, o valuation de US$ 2 trilhões não seria um exagero. O valor seria sete vezes a receita anualizada de US$ 320 bilhões projetada para 2027, um múltiplo um pouco menor que o da Microsoft. A cifra também seria compatível com a projeção, feita pelo Morgan Stanley, de que a IA generativa poderá alcançar um mercado endereçável de US$ 50-60 trilhões (cerca de 3-5% ficariam com a Anthropic). O mercado endereçável é entendido como o valor econômico potencial que pode ser liberado (em eficiência, economia de custos e novo valor criado) a partir do estoque global de remuneração do trabalho.
A título de comparação, a SpaceX foi avaliada em US$ 800 bilhões em dezembro de 2025 e a precificação no IPO correspondeu a um valuation de US$ 1,78 trilhão (múltiplo de 11x a receita estimada para 2028), cifra que ainda aumentou após valorização inicial de 19% nos primeiros pregões. No final de setembro, o market cap da empresa foi de 2,32 trilhões.
Contudo, a minuta não contém apenas números e projeções
O prospecto é o documento central de uma oferta de ações, trazendo dados da companhia e, principalmente, uma visão de seu modelo de negócio, perspectivas e riscos. Não raro, o prospecto acaba por dizer tanto, que é difícil separar sinal e ruído. A enumeração de fatores de risco costuma ser vista mais como apólice de seguro da companhia do que subsídio genuíno para a tomada de decisão.
Segundo a Reuters, quase um terço da minuta da Anthropic trata de riscos, notadamente o de modelos que manipulam, chantageiam e se comportam de modo imprevisível. Dario Amodei, CEO da empresa, estima entre 10% e 25% a chance de as coisas irem “muito, muito mal”. Essa preocupação com os chamados “riscos existenciais da IA” levou a OpenAI a suspender seus planos de IPO, dentre outros fatores, talvez como saída retórica para atenuar as constantes saídas de pessoas-chave e a perda de mercado para a Anthropic, além de acesso mais vantajoso a fontes de financiamento privadas antes de uma captação pública.
Apesar da narrativa apocalíptica, a Anthropic não chega a replicar o tom profético da SpaceX, cujo prospecto falava, além de mineração de asteroides e transporte para Lua e Marte, em “estender a luz da consciência às estrelas” e em garantir a “redundância da espécie” para que os humanos não tenham “o destino dos dinossauros”.
A despeito dessa discussão filosófica, os investidores desejam saber se o modelo de negócio é sustentável, se a demanda será concretizada e os benefícios da IA generativa serão efetivamente auferidos. Essas premissas fundamentam toda a arquitetura de investimentos em infraestrutura para assegurar capacidade computacional, ponto central do discurso da Anthropic, que teria que gastar pelo menos US$ 518 bilhões ao longo de uma década em infraestrutura de IA, com seis parceiros (entre eles Google, Amazon e Microsoft).
O modelo intensivo em capital de longo prazo, com receitas crescentes, mas ainda muito menores que os compromissos totais de infraestrutura, aposta que a demanda por IA avançada continue crescendo por anos e que a empresa consiga monetizar suficientemente (assinaturas, APIs, contratos corporativos, licenciamento) para cobrir esses custos e gerar retorno, com a manutenção de vantagem competitiva em modelos e distribuição que justifique preços e volumes altos.
Em qualquer caso, permanece a lição de casa: ler com atenção o prospecto, observar os fatos para além do discurso, filtrar os exageros e testar as premissas do modelo. Em um mercado no qual projeções assumem um tom quase profético – quando se fala de receitas futuras junto com ameaças à continuidade da espécie humana – a alta volatilidade dos preços é a única certeza.
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