Se há uma coisa que Márcio Chaer detestaria, entre tantas que ele criticava, seria abrir a ConJur (revista eletrônica que ele fundou em 1997, quando a internet era uma promessa) e encontrar uma lista de textos em homenagem a ele próprio. Escrevo mais um, por pura provocação.
ReproduçãoMárcio Chaer (1955-2026)
Márcio diria para “empilhar” todas as falas de amigos e jornalistas sobre o personagem em uma notícia; fazer outra com as principais autoridades (veja que até o presidente da República fez uma nota); e uma biografia em reportagem. E fim.
“O leitor da ConJur vai abrir o site para saber dos impactos da eleição e vai descobrir o quê? Que Márcio Chaer mudou a forma de fazer jornalismo especializado no Brasil? Que ele foi o responsável por formar uma geração de jornalistas que hoje produzem as mancehtes de dezenas de veículos? E o que o leitor, um advogado buscando trabalho, vai poder usar disso numa petição?”, questionaria.
Para ele, o projeto (ConJur) deveria estar acima de tudo. E qual é esse projeto? Ser a voz do direito de defesa no Brasil. Ser o espaço para aprender sobre teses, enquanto todos olham para os personagens envolvidos nos casos. “É como o humor do Millor Fernandes, que mostrava que o rei estava nu, queno todo mundo estava olhando para o outro lado”, repetia.
Sua incapacidade de “contemporizar com a mediocridade” é o que fez dele o gigante de dois mundos, o jornalismo e o Direito, que hoje estão menores, mais fracos, com sua partida.
Eu tinha 26 anos e pouquíssima estrada quando Chaer e Maurício Cardoso (craque do jornalismo e seu fiel escudeiro), decidiram que eu deveria chefiar a redação da ConJur. Passei, ali, a coordenar um time de feras, que colecionavam prêmios e histórias, desde antes de eu sequer sentar nos bancos da faculdade.
Convivemos intensamente nos seis anos seguintes, de forma que posso dizer que foi ele que me entregou verdadeiramente as chaves da profissão. Abriu as portas com as autoridades, me jogou aos leões, com a certeza de que eu teria as ferramentas para sobreviver a eles e voltar com alguma coisa publicável.
Intenso é um bom adjetivo para definir o convívio com o Márcio. Meu papel como chefe de reação era, muitas vezes, evitar que essa intensidade deixasse com que paixões, dele mesmo, passassem por cima do projeto (que deveria estar acima de tudo). Discutíamos e ele se realizava com os conflitos, aproveitando cada um dos mil debates para dar suas aulas de jornalismo.
Pequenos erros eram seu terror
Sonhava com o dia que convenceria repórteres a passarem feriados buscando vírgulas erradas no acervo de milhões de textos publicados na ConJur. Na parede de sua sala, ao lado de bilhetes e desenhos emoldurados, uma imagem pequenininha, do tamanho de um cartão postal, exibia uma máquina de escrever com espinhos nas teclas. “Precisa escrever muito, precisa ser doloroso, até criar calos para aguentar esses espinhos”, explicava.
Posso apontar mais de uma dezena de jornalistas que continuarão enfrentando esses espinhos, lembrando das lições de Chaer. E outros tantos que receberam suas lições indiretamente. Além dos milhões de leitores que se beneficiarão disso, mesmo após sua partida, no dia 3 de outubro de 2026.
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